Projeto E Se... : Um cenário das histórias de Le Fanu


Oi, amigos, como estão? Espero que estejam bem =)

Agora que sobrevivi à temporada no universo expandido do livro de Dante, posso respirar fundo, me sentar na frente do computador e adiantar os posts que ficaram em atraso nessa última semana. Na verdade, tinha até alguns posts prontos e outros que só precisavam daquele último retoque, mas quem me acompanha há um tempo (ou então quem só acompanha a previsão do tempo mesmo) será capaz de compreender o quanto as altas temperaturas e a baixa umidade do ar bugam meu corpo e minha mente, além de transformar em pesadelo o simples fato de ficar uma ou duas horas sentada na cadeira estofada do PC pra procurar fotos e corrigir textos antes de apertar o botão “Publicar”.

É doloroso, mas as coisas são assim.

De qualquer forma, estou feliz porque o clima mudou aqui em SP e uma porcentagem razoável do meu ser está conseguindo levar adiante as atividades normais, e também pq hoje tem estreia de mais um projeto lindíssimo do Blogs Up, o grupo que é dono dos projetos mais top incríveis daquele Facebook. O projeto da vez é o “E Se...”, que consiste basicamente em escrever sobre o tema proposto no mês. Pra outubro, por exemplo, os temas foram “E se vc fosse um dos personagens do Johnny Depp” e “E se vc fosse um lugar”, e ainda vai ter um tema secreto de brinde.

Eu queria fazer dos dois temas, é claro, mas como a minha programação não está o que se pode chamar de 100% em dia, não vai dar não. E aproveitando que eu tinha escrito um texto descritivo de uma mansão abandonada numa paisagem outonal há um tempo inspirado num dos contos de Sheridan Le Fanu (que quem pertence ao lado negro da Literatura vai identificar como o autor de Carmilla), resolvi postar sobre o segundo tema.


Se eu fosse um lugar, seria esse aqui:



"A trilha que cortava o bosque tornava-se avermelhada no outono, úmida e um tanto ruidosa com o acréscimo da nova camada de folhas mortas, que o orvalho das noites frescas não tardava em visitar. No fim do caminho, do lado norte do bosque, a trilha se desfazia ao sair da sombra das últimas árvores a reterem folhas em seu topo e se espalhava na forma de um terreno descampado que declinava suavemente dali a uns dois ou três metros até ser flanqueado à esquerda por um lago elíptico e espaçoso. A inércia desconcertante daquela água escura e opaca só era interrompida por pequenas ondulações que a brisa típica da região formava, especialmente se trazia consigo alguma folha seca que pousasse na superfície negra e gélida para ser levada para o centro do lago como um barco de papel que uma criança colocasse ali e impelisse com sopros para adiante.

Do lado direito, havia pouco para ver nas proximidades: um campo de um verde em decadência, com uma ou outra árvore perdida, até que o terreno descia abruptamente e dava com um portão velho e enferrujado, cujas trancas não sustentavam um cadeado há muito; do outro lado do portão, o campo continuava por mais um pouco até acabar na capela, que agora não passava de monumento dos tempos da Reforma.

À frente, a casa vetusta assomava silenciosa e alheia à metamorfose da natureza naquele lugar remoto, como um organismo que vivesse dentro de seu próprio tempo e espaço e contudo visível aos seres de nosso mundo. Entre ela e o lago havia um relógio de sol, inútil na ocasião em vista das pesadas nuvens passantes. Umas poucas árvores ressequidas (uma delas morta) a cercavam de ambos os lados, as folhas amarelas e vermelhas ora dançando em pequenos remoinhos ora se arrastando pelo gramado e pelo plano frontal, contíguo à grande porta de madeira escura e acessível por uma escada de três degraus, feitos do mesmo material.

A construção só contava com dois andares, mas sua atmosfera onipotente (para não dizer opressiva) dava-lhe a impressão de ser mais alta. As janelas, estreitas e embaçadas, pareciam olhar para baixo a dizer que estiveram fechadas por conta própria todos aqueles anos e que só se abririam se assim lhes aprouvesse. Em seu auge, deviam ter sido a alegria dos residentes, refratando a luz do sol das tardes em arco íris luzentes através de seus vitrais coloridos, agora esmaecidos. Uma ou duas delas tinham partes de seus vitrais quebrados.

Os corvos faziam do telhado o seu local de repouso; crocitavam uns para os outros, e o vento levava o som das conversas para onde desejasse. As aves alternavam entre as telhas e as árvores próximas. Mais abaixo, um gato espreitava do espaço sob os degraus dianteiros; certamente a casa teve sua colônia de roedores. Alguns morcegos deviam passar os dias dormindo do lado de fora, presos ao teto."

E essa é a minha contribuição pro E Se...! O texto não é muito extenso, e é um tanto aleatório por ser um one-shot que escrevi quando tive um lapso de inspiração, então por ora não planejo colocá-lo em nenhuma história. Quem sabe um dia.

Um beijo e até o próximo post! =)



Comentários

  1. Gostei mais da descrição que da imagem. Não sei, acho que eu teria medo desse lugar. Isso significa que eu teria medo de você? Será? Haahahaha!

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    1. RINDO ALTO, MAS MUITO ALTO AGORA KKKKKKKKKK Não sei vc teria medo de mim, mas acho esse lugar aí bem calminho, sussa, então talvez vc não precise ter medo!
      Um beijo!!

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  2. Mulher, adorei o texto demais ♥ Não conhecia o projeto, mas já tô aqui procurando sobre ele porque sou dessas aiuheiuahe. O lugar que escolheu é maravilhoso, me agrada muito essa coisa mais "sutil", mas simples. Ele é um tanto peculiar, mas não ao ponto de dar medo aieuaiueh. Geralmente nossos melhores textos vem desses lapsos estranhos de criatividade, né? É cada coisa em cada momento inapropriado rs. Enfim, adorei o post.

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    1. Kelly, o projeto é do lindo do Blogs Up! Procura ele sim que vale a pena, viu? escolhi esse lugar meio aleatoriamente, pq ele me passou uma sensação boa, e nem um pingo de medo, na verdade hahahahha É nesses momentos mais nonsense que aparecem as melhores ideias, mesmo!
      Um beijo!

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  3. Que texto mais maravilhoso, reflexivo... me fez viajar hehe. Adorei a ideia desse projeto e fiquei me imaginado como uma personagem do Johnny Deep (Chapeleiro, sou eu mesma!), ou como um lugar. Apesar de eu adorar o outono, acho que eu seria um lugar bem mais frio, cheio de neve *_*

    Já disse que eu amo os posts do seu blog?! <3

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    1. Esse texto foi uma viagem pq surgiu bem de repente, sabe? hahahaha Esse foi um dos projetos mais legais que fizeram lá pelo Blogs Up, e como disse também fiquei babando pelo tema do Johnny, mas é aquela coisa, vamo fazê o quê, né? XD Os lugares frios também me atraem bastante, especialmente a Islândia e a Suíça, mas é que no dia que escrevi tava me sentindo meio "outonal" hahaha Aliás, fico muito feliz em saber que tu gosta dos posts! Um beijo!

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