Opinião: Qual o problema em ficar quieto?


Oi, amigos, como estão? Espero que estejam bem =)

Hoje eu resolvi falar sobre um assunto que apesar de parecer bobagem de bobagem não tem nada: é a falta de respeito pela preferência que algumas pessoas têm pelo silêncio e pelos momentos de solidão, bem como pelo direito de ficar de cara fechada de vez em quando.

Vc já deve ter percebido que ser simpático, sociável e fazer trabalho em equipe parece a chave pra alguém se tornar o cidadão/funcionário/aluno perfeito. Fazer networking é uma coisa que se recomenda em TODO LUGAR. Sim, no emprego, no colégio, na rede social, autopromoção é a regra se vc quiser crescer, quiser que os outros vejam (e valorizem) seu trabalho.

Mas isso é chato. MUITO CHATO.

Ok, eu não atiraria numa pessoa que faça isso na minha frente nem estragaria a parede de casa por isso (embora vontade não falte), mas eu tenho que dizer o quanto isso me parece irritante. Chato demais.

E não é só questão de autopromoção.

Eu lembro que na reunião de integração pro meu primeiro emprego, fomos avisados de que teríamos um funcionário antigo como nosso companheiro, uma espécie de madrinha/padrinho que nos ajudaria a entender a rotina da empresa e como são feitos os serviços, etc. Até aqui tudo bem. Mas então a diretora do RH disse pra gente o seguinte: "Vcs pelo amor de Deus, não saiam de perto das suas madrinhas (...) Pra mim, funcionário sozinho é funcionário com problema."

Como assim? Como era meu primeiro trabalho e eu não conhecia o ambiente nem as pessoas com que eu teria de lidar, não questionei isso na hora. Mas é claro que não concordei com aquilo. E muito menos "obedeci". Na hora do intervalo eu comia sozinha e saía pra ficar só, ouvindo música. A minha madrinha era uma boa pessoa, claro, mas a gente acabou não fazendo amizade uma com a outra, nem quando eu cheguei nem quando saí. E nenhuma de nós foi prejudicada profissionalmente por isso.

Mas por que eu estou dizendo tudo isso? Porque como introvertida, chega uma hora que tanto barulho ao meu redor CANSA. Como disse no começo, autopromoção é uma prática incentivada desde cedo, na escola (sabe aquela nota de participação?) até a vida profissional: vc tem que falar alto, se expor, se quiser ser notado, vc precisa mostrar espírito de liderança, tem que saber trabalhar em equipe e blá blá blá

É claro que não tem nada de errado em ser extrovertido. Esse é o jeito de alguns. Nós também precisamos de bons líderes, e é útil saber conviver e trabalhar com outras pessoas. O que é errado é impor esse modelo como o único caminho a seguir pra se obter um resultado eficaz no trabalho da escola ou no projeto da empresa. O que é errado é esquecer que existe o outro lado. Aceitar esse padrão sem ao menos questioná-lo, sem nunca pensar sobre ele.


E essa história de achar que a extroversão é o único modelo saudável é típica do Brasil? Não, não é. Quando comecei a ler o Quiet, o livro da Susan Cain, aprendi um pouco sobre a história desse modelo de comportamento e vi que os quietos brasileiros não são os únicos a sofrer com isso, e que esse conceito vem de tempos atrás e foi se fortalecendo ao longo do século passado. Isso também serviu pra eu acabar de vez com a mania de achar que certas coisas "só existem no Brasil mesmo". Porque não.

Apesar de o senso comum no nosso país dizer há bastante tempo que uma pessoa tem de ser simpática e gostar de socializar, etc. pra ser bem vista, essa ideia veio de fora e em muitos outros lugares as pessoas introvertidas/quietas/tímidas tem que lutar diariamente com o barulho do mundo que as cerca.

Também com esse livro vi o quanto o padrão norte-americano da extroversão no trabalho influenciou (e ainda influencia) a vida profissional de gente em lugares bem mais distantes. Felizmente já existem empresas e grupos que percebem como é equivocado estabelecer esse tipo de regra pra comportamento e têm mudado sua política pra ajudar pessoas com diferentes personalidades a trabalhar num ambiente mais saudável.

Mas se isso é um erro tão grave, por que tem gente que ainda insiste nesse padrão? A resposta não é tão simples, e fazer as mudanças necessárias é menos ainda, por pelo menos três motivos.

Primeiro, as empresas que impõem esse modelo pros seus funcionários são feitas de pessoas que têm seus defeitos e seus preconceitos como nós, por isso muitas vezes elas repassam essas ideias sem ao menos parar pra pensar, simplesmente porque é isso o que elas aprenderam como o certo, como o caminho pro sucesso profissional. Ou pode ser que elas mesmas tenham pensado sobre e não concordem com isso, mas tem medo ou vergonha de questionar a política da empresa tão abertamente, de dar a cara pra bater, sabe?

Segundo, essas mesmas pessoas não se deparam com o padrão da extroversão só quando chegam no mercado de trabalho, mas muito antes disso, em casa, na escola, na rua. Esse padrão é empurrado pra todo mundo em todo lugar. Talvez por isso elas acabam se deixando levar e acreditando que a ideia de que "fazer barulho garante sucesso" é verdade. Tanto é que elas muitas vezes nem sabem como questionar e rebater essa ideia.

E por último, um motivo mais que batido: o preconceito. O ser humano, por mais amoroso e compreensivo que possa ser, sempre teve a tendência de temer e julgar o diferente. Pior ainda é o medo de ser diferente. Ninguém quer ser considerado esquisito, problemático, por não se comportar igual aos outros, ainda que fazer o que os outros fazem seja ridículo. Você não quer que os outros te subestimem só porque você não é igual a eles. E o medo é natural, já vem desde cedo, enquanto que a luta contra o medo, contra o preconceito, a gente tem de aprender com o passar do tempo.

E então, pra que as coisas mudem, o negócio é o tempo?

Sim. É desse tempo que todos precisam, inclusive aquelas pessoas que te cobram tanto a trabalhar em equipe no seu primeiro emprego. Tempo pra aprender que a gente pode sim viver bem uns com os outros, mesmo que alguns gostem de agitação e outros não, que uns trabalhem muito bem cercados de pessoas e outros prefiram criar seus projetos numa sala trancada no escritório. Tempo pra ver que não tem nada de errado em ficar quieto, não tem problema nenhum recusar um convite pra festinha só pra ficar em casa descansando ou lendo um livro, e que achar que o Mr. Darcy (e não Mr. Bingley) é sua alma gêmea literária não faz de você menos humano que ninguém.

Um beijo e até o próximo post! =)



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